Sexualidade Sagrada – Religar o Corpo à Consciência

Porque é que o Sagrado foi remetido para fora dos Corpos e tido como exclusivo de um plano mental e etéreo?: Como é que a vergonha, o medo e o controlo afastaram as Mulheres da sabedoria intuitiva sobre a  sua Sexualidade, com a expressão dos seus corpos e da consciência dos seus ciclos?

As primeiras celebrações e cultos de que há registo histórico honravam a Matriz Feminina, através de cultos de fertilidade e dos ciclos lunares e ao ritmo das estações. O Sagrado era feminino, pois era sobretudo celebrado por Mulheres que detinham toda a organização social da tribo, enquanto os homens caçavam. Segundo Monica Sjoo e Barbara Mor, autoras do grande obra ” The Great Cosmic Mother“, a espiritualidade ancestral estava profundamente enraizada nos corpos, tidos como sagrados, porque geravam vida, morte e renascimento, tal como a Natureza que as acolhia e nutria.

A gestão do tempo e do espaço das comunidades era feita por calendários lunares e pelos ciclos dos seus corpos, tendo uma profunda consciência destas duas forças – a da Lua e a da Menstruação – na orientação da sua sexualidade: quer saber o melhor momento para conceber, para colher alimentos ou curar feridas, quer perceber a melhor fase para abortar ou encerrar capítulos de vida, as mulheres detinham esse conhecimento de Corpo intuitivo, selvagem e autêntico profundamente ligado aos Ciclos solares e lunares  sazonais.

O Sagrado era o Corpo, a Terra, e os Ciclos.

A sua sexualidade, desde o ciclo menstrual, as relações sexuais, a gravidez, o parto a amamentação, a menopausa e a morte, tão igual aos ciclos de vida-morte-vida da Mãe Natureza, era uma dádiva inerente dos seus corpos, inquestionável sabedoria que orientava toda a comunidade na sua vivência colectiva. Não seria de estranhar que os corpos fossem explorados de uma forma natural, sem reservas e vergonhas, para que esse conhecimento tão visceral e intuitivo brotasse para o quotidiano das sociedades matrifocais.

Mas, segundo Monica Sjoo e Barbara Mor, houve uma profunda mudança social, política, económica e religiosa há cerca de 7.000 anos, quando as sociedades iniciaram uma intensa sedentarização, com a agricultura e criação de gado, que fixaram permanentemente as pessoas em locais definidos.  Os sistemas matriarcais baseados nos ciclos sazonais, no sagrado feminino e numa estrutura democrática circular, não tinham mais lugar nesta nova era, onde a propriedade privada e o poder do mais forte deu lugar a uma sociedade profundamente hierarquizada, encimada por um todo poderoso rei, chefe ou líder.

As grandes civilizações pré-clássicas, como o Egipto, a Abissínia ou a Maia, cujas alicerces sociais e políticos se baseavam em literais pirâmides de poder, cujo cume era exclusivo de um homem todo poderoso, deu lugar a uma transferência de culto: do paganismo terreno e da espiritualidade multidimensional, onde cada elemento da natureza e dos corpos eram por si só “deuses”, passou-se a reverenciar um senhor todo poderoso no topo dessa pirâmide, de quem cuja representação directa seria o grande astro rei- o Sol.

Ao longo de toda a História, esta religiosidade solar, em contraste com a espiritualidade lunar e terrena das sociedades matrifocais tribais, serviu o poder político de inúmeros sistemas patriarcais, baseados num grande senhor todo poderoso, onde a energia e o foco de toda a estrutura política e religiosa ( poderes intensamente interligados), não estariam mais nos ciclos, no corpo, no útero das mulheres e da Mãe Terra, mas antes, num topo bem inalcançável de uma pirâmide, de um Céu invisível e longe dos corpos físicos e terrenos, capaz de controlar tudo e todos sob os desígnios de um Deus todo Poderoso, representado directamente por um líder ( reis do Egipto, Imperadores europeus, ditadores e actualmente os grandes líderes das corporações multibilionárias da indústria do armamento e da petro-química).

Para sustentar um poder patriarcal, piramidal ou fálico, parafraseando as autoras, retido nas mãos de muitos poucos homens no mundo, é pois necessário que o conhecimento, a sabedoria e a partilha dos saberes intuitivos e naturais dos nossos corpos, da vida e do universo, sejam retidos e tornados pouco acessíveis.

Assim pensaram os primeiros patriarcas das grandes civilizações quando pintaram de vergonha e medo o sangue menstrual da mulher, tema citado na Bíblia, bem como mais tarde o puritanismo da Igreja e das outras organizações religiosas orientais que colocaram o prazer como imoral e proibido dos corpos femininos e o controlo dos seus ciclos.

O Sagrado foi separado do Corpo e da Terra para se unir a um Céu, invisível e distante de todos, servido propósitos exclusivos de poucos.  No entanto, o que ficou silenciado nos corpos de cada uma de nós Mulheres está hoje a renascer, regado e despertado por uma nova consciência de liberdade que nos dá acesso a uma sabedoria que terá a idade da própria Terra, tão mais antiga do que qualquer civilização patriarcal.

Os nossos corpo despertam para uma ecologia espiritual, como defende Starwak, para um resgate da Mulher Selvagem, como nos ensina Clarissa Pinkolas Éstes e para um re-ligar do Corpo à Consciência de que o Sagrado não está fora de nós, mas bem dentro da nossa alma, do nosso Corpo e que os nossos ciclos são as expressão mais sagrada da Vida. Cabe a cada uma de nós Mulheres fazer esse resgate do Sagrado Feminino.

Marta Conceição | Mulher, Mãe, buscadora do Sagrado Feminino | Professora de Exercício e Mindfulness Corporal

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