Équinocio | Águas de Março!

Foto: Chanel Baran

O equinócio sempre me deu vontade de limpar, de transformar tudo na sua forma mais simples e pura. E claro, a limpeza e a pureza remetem-me para o potencial transformador da água.

Hoje, sentindo a brisa do vento na cara, a minha vontade é ir em direcção à praia, descalçar-me e deixar que as ondas frias dos primeiros dias, feitos de promessa de calor, me toquem os pés e me purifiquem. Vontade de deixar que as ondas levem tudo o que acumulei este inverno e que já não me serve mais.

A água é transformadora, purificadora. A água limpa-me e renova-me.

Fecho os olhos, e imagens de momentos ritualísticos, que passei com a água, invadem-me a memória de uma forma tão vívida, que quase sinto o cheiro da sua frescura.

Vem-me à memória um momento passado na Índia, um mergulho no rio Ganges, na parte mais perto na nascente onde os homens ainda não conseguiram poluir. Eu, toda vestida de branco, a entrar na água para oferecer flores à mãe Ganga. Em som de fundo, misturado com o poderosíssimo cantar do rio, cantamos o mantra “om ganga mai”. E evoco a sensação de Gratidão à Vida que aquele momento deixou gravada em mim.

Vem-me à memória o momento em que, juntamente com mais três mulheres lindas, entrei nua, numa noite de lua cheia, na piscina da fonte santa. A fonte santa é um lugar muito especial, hoje em dia ao abandono – umas pequenas casinhas construídas sobre uma linha de águas que, dizem os antigos, são sagradas e boas para cuidar os males da Alma. Cantávamos “Nibi Wabo”, para a lua e para nós. Simplesmente nos deliciávamos com o facto de estarmos vivas. Evoco a sensação de sacralidade e de irmandade que guardei em mim nessa noite.

Vem-me à memória a água da piscina do parto, onde o meu filho nasceu e eu renasci. Memória intensa e poderosa, com muitas nuances, carregada de emoção e sentimento. A Água que nos acolheu. A Água que transformou a minha dor em confiança e poder. Evoco a memória do nascimento. Deixo bem viva em mim a lembrança de que renasço a cada dia.

Avozinha água, graças te dou, por abrires o meu coração, à alegria e ao amor.

Texto: Rute Ferreira

~ As Mães d’ Água são um movimento cívico inspirador que promove os benefícios (e beleza!) do Parto Natural, Na Água ~ www.maesdagua.org

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